quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

João e Maria


a clássica história de Jakob e Wilhelm Grimm, numa adaptação do livro Contos de Fadas. Como em 'Chapeuzinho Vermelho', a moral da história vem numa linda embalagem!

Às margens de uma floresta existia, há muito tempo, uma cabana pobre feita de troncos de árvores, onde moravam um lenhador, sua segunda esposa e seus dois filhinhos, nascidos do primeiro casamento. O garoto chamava-se João e a menina, Maria.
Na casa do lenhador, a vida sempre fora difícil, mas, naquela época, as coisas pioraram: não havia pão para todos.
— Mulher, o que será de nós? Acabaremos morrendo de fome. E as crianças serão as primeiras.
— Há uma solução... – disse a madrasta, que era muito malvada – amanhã daremos a João e Maria um pedaço de pão, depois os levaremos à mata e lá os abandonaremos.
O lenhador não queria nem ouvir um plano tão cruel, mas a mulher, esperta e insistente, conseguiu convencê-lo.
No aposento ao lado, as duas crianças tinham escutado tudo, e Maria desatou a chorar.
— E agora, João? Sozinhos na mata, vamos nos perder e morrer.
— Não chore — tranquilizou o irmão. — Tenho uma idéia. Esperou que os pais estivessem dormindo, saiu da cabana, catou um punhado de pedrinhas brancas que brilhavam ao clarão da Lua e as escondeu no bolso. Depois voltou para a cama.
No dia seguinte, ao amanhecer, a madrasta acordou as crianças.
— Vamos cortar lenha na mata. Este pão é para vocês. Partiram os quatro. O lenhador e a mulher na frente, as crianças atrás. A cada dez passos, João deixava cair no chão uma pedrinha branca, sem que ninguém percebesse. Quando chegaram bem no meio da mata, a madrasta disse:
-— João e Maria, descansem enquanto nós vamos rachar lenha para a lareira. Mais tarde passaremos para pegar vocês.
Os dois irmãos, após longa espera, comeram o pão e, cansados e fracos, adormeceram. Acordaram à noite, e nem sinal dos pais.
— Estamos perdidos! Nunca mais encontraremos o caminho de casa! — soluçou Maria.
— Quando a Lua aparecer no céu acharemos o caminho de casa — consolou-a o irmão.
Quando a Lua apareceu, as pedrinhas que João tinha deixado cair pelo atalho começaram a brilhar, e, seguindo-as, os irmãos conseguiram voltar à cabana.
Ao vê-los, os pais ficaram espantados. O lenhador, em seu íntimo, estava contente, mas a mulher não. Assim que foram deitar, disse que precisavam tentar novamente, com o mesmo plano. João, que tudo escutara, quis sair à procura de outras pedrinhas, mas não pôde, pois a madrasta trancara a porta. Maria estava desesperada.
— Como poderemos nos salvar desta vez?
— Daremos um jeito, você vai ver.
Na madrugada do dia seguinte, a madrasta acordou as crianças e foram novamente para a mata. Enquanto caminhavam, Joãozinho esfarelou todo o seu pão e o da irmã, fazendo uma trilha. Desta vez afastaram-se ainda mais de casa e, chegando a uma clareira, os pais deixaram as crianças com a desculpa de cortar lenha, abandonando-as.
João e Maria adormeceram, famintos e cansados. Quando acordaram, estava muito escuro, e Maria desatou a chorar. Mas desta vez não conseguiram encontrar o caminho: os pássaros haviam comido todas as migalhas. Andaram a noite toda e o dia
seguinte inteirinho, sem conseguir sair daquela floresta, e estavam com muita fome. De repente, viram uma casinha muito mimosa. Aproximaram-se, curiosos, e viram, encantados, que o telhado era feito de chocolate, as paredes de bolo e as janelas de
jujuba.
— Viva!— gritou João.
E correu para morder uma parte do telhado, enquanto Mariazinha enchia a boca de bolo, rindo. Ouviu-se então uma vozinha aguda, gritando no interior da casinha:
— Quem está o teto mordiscando e as paredes roendo?
As crianças, pensando que a voz era de uma menina de sua idade, responderam:
— É o Saci-pererê que está zombando de você!

Subitamente, abriu-se a porta da casinha e saiu uma velha muito feia, mancando, apoiada em uma muleta. João e Maria se assustaram, mas a velha sorriu, mostrando a boca desdentada.
— Não tenham medo, crianças. Vejo que têm fome, a ponto de quase destruir a casa. Entrem, vou preparar uma jantinha. O jantar foi delicioso, e a velha senhora ajeitou gostosas caminhas macias para João e Maria, que adormeceram felizes. Não sabiam, os coitadinhos, que a velha era uma bruxa que comia crianças e, para atraí-las, tinha construído uma casinha de doces.
Agora ela esfregava as mãos, satisfeita.
— Estão em meu poder, não podem me escapar. Porém estão um pouco magros. É preciso fazer alguma coisa. Na manhã seguinte, enquanto ainda estavam dormindo, a bruxa agarrou João e o prendeu em um porão escuro, depois, com uma sacudida, acordou Maria.
— De pé, preguiçosa! Vá tirar água do poço, acenda o fogo e apronte uma boa refeição para seu irmão. Ele está fechado no porão e tem de engordar bastante. Quando chegar no ponto vou comê-lo. Mariazinha chorou e se desesperou, mas foi obrigada a obedecer. Cada dia cozinhava para o irmão os melhores quitutes. E também, a cada manhã, a bruxa ia ao porão e, por ter vista fraca e não enxergar bem, mandava:
— João, dê-me seu dedo, quero sentir se já engordou!
Mas o esperto João, em vez de um dedo, estendia-lhe um ossinho de frango. A bruxa zangava-se, pois apesar do que comia, o moleque estava cada vez mais magro! Um dia perdeu a paciência.
— Maria, amanhã acenda o fogo logo cedo e coloque água para ferver. Magro ou gordo, pretendo comer seu irmão. Venho esperando isso há muito tempo!
A menina chorou, suplicou, implorou, em vão. A bruxa se aborrecera de tanto esperar.
Na manhã seguinte, Maria tratou de colocar no fogo o caldeirão cheio de água, enquanto a bruxa estava ocupada em acender o forno para assar o pão. Na verdade ela queria assar a pobre Mariazinha, e do João faria cozido. Quando o forno estava bem quente, a bruxa disse à menina:
— Entre ali e veja se a temperatura está boa para assar pão.
Mas Maria, que desconfiava sempre da bruxa, não caiu na armadilha.
— Como se entra no forno? — perguntou ingenuamente.
— Você é mesmo uma boba! Olhe para mim! — e enfiou a cabeça dentro do forno.
Maria empurrou a bruxa para dentro do forno e fechou a portinhola com a corrente. A malvada queimou até o último osso. A menina correu para o porão e libertou o irmão. Abraçaram-se, chorando lágrimas de alegria; depois, nada mais tendo a temer,
exploraram a casa da bruxa. E quantas coisas acharam! Cofres e mais cofres cheios de pedras preciosas, de pérolas... Encheram os bolsos de pérolas. Maria fez uma trouxinha com seu aventalzinho, e a encheu com diamantes, rubis e esmeraldas.
Deixaram a casa da feiticeira e avançaram pela mata. Andaram muito. Depois de algum tempo, chegaram a uma clareira, e perceberam que conheciam aquele lugar. Certa vez tinham apanhado lenha ali, de outra vez tinham ido colher mel naquelas árvores... Finalmente, avistaram a cabana de seu pai. Começaram a correr naquela direção, escancararam a porta e caíram nos braços do lenhador que, assustado, não sabia se ria ou chorava.

Quantos remorsos o tinham atormentado desde que abandonara os filhos na mata! Quantos sonhos horríveis tinham perturbado suas noites! Cada porção de pão que comia ficava atravessada na garganta. Única sorte, a madrasta ruim, que o obrigara a livrar-se dos filhos, já tinha morrido. João esvaziou os bolsos, retirando as pérolas que havia guardado; Maria desamarrou o aventalzinho e deixou cair ao chão a chuva de
pedras preciosas. Agora, já não precisariam temer nem miséria nem carestia. E assim, desde aquele dia o lenhador e seus filhos viveram na fartura, sem mais nenhuma preocupação.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

As Doze Princesas

Este é o conto de fadas que inspirou a animação “Barbie e as 12 princesas bailarinas”. Como sempre, a história não dá muitas explicações. Editei o texto mais encontrado na internet, mas não alterei a estrutura.

Era uma vez um rei que tinha doze filhas.
Todas eram muito lindas e muito amigas. A mãe delas morreu quando a última princesinha nasceu, e desde então, elas passavam o dia entre as prendas do lar e os deveres reais.  As doze princesas dormiam no mesmo quarto, em doze camas com dossel. Misteriosamente, pela manhã, seus sapatos invariavelmente apareciam com as solas muito gastas, como se tivessem caminhado ou dançado a noite toda, mas no resto do castelo, nada se ouvia.
Por isso, quando se recolhiam, eram trancadas a chave por fora. Ninguém conseguia descobrir como isso acontecia. Então, o rei anunciou por todo o reino que se alguém pudesse descobrir aquele segredo – onde as princesas dançavam a noite – poderia se casar com uma delas e seria o herdeiro do trono.
Mas, quem tentasse e não conseguisse, ao fim de três dias e três noites morreria.
Logo o filho de um rei se apresentou. Foi muito bem recebido, e à noite, levaram-no para o quarto ao lado dos aposentos das doze princesas. Ele tinha que ficar em vigília, e além disso, deixou a porta do quarto entreaberta. Mas tudo que havia era silêncio e em pouco tempo, o príncipe adormeceu.
Quando acordou de manhã, viu que as princesas tinham dançado de noite, porque as solas dos doze pares de sapatos estavam cheias de buracos. O mesmo aconteceu nas noites seguintes, e por isso o rei ordenou que a ordem fosse cumprida, e que o príncipe tivesse a cabeça cortada. Depois dele vieram vários outros; nenhum teve melhor sorte, e todos perderam a vida da mesma maneira.
Ora, um ex-soldado, que tinha sido ferido em combate e já não mais podia guerrear, chegou ao país. Um dia, ao atravessar uma floresta, encontrou uma velha, que lhe perguntou aonde ia.
— Quero descobrir onde é que as princesas dançam, e assim, mais tarde, vir a ser rei.
— Bem, disse a velha, - isso não custa muito. Basta que tenhas cuidado e não bebas do vinho que uma das princesas te trouxer à noite. Logo que ela se afastar, deves fingir estar dormindo profundamente. E, dando-lhe uma capa, acrescentou:
— Logo que puseres esta capa tornar-te-ás invisível e poderás seguir as princesas para onde quer que elas forem.

Quando o soldado ouviu estes conselhos, foi ter com o rei, que ordenou lhe fossem dados ricos trajes; e, quando veio a noite, conduziram-no até o quarto de fora. Quando ia deitar-se, a mais velha das princesas trouxe-lhe uma taça de vinho, mas o soldado
entornou-a toda sem ela o perceber. Depois estendeu-se na cama, e daí a pouco pôs-se a ressonar como se estivesse dormindo. As doze princesas puseram-se a rir, levantaram-se, abriram as malas, e, vestindo-se esplendidamente, começaram a saltitar de contentes, como se já se preparassem para dançar. A mais nova de todas,
porém, subitamente preocupada, disse:
— Não me sinto bem. Tenho certeza de que nos vai suceder alguma desgraça.
— Tola!, replicou a mais velha. Já não te lembras de quantos filhos de rei nos têm vindo espiar sem resultado? E, quanto ao soldado, tive o cuidado de lhe dar a bebida que o fará dormir.

Quando todas estavam prontas, foram espiar o soldado, que continuava a ressonar e estava imóvel. Então julgaram-se seguras; e a mais velha foi até a sua cama e bateu palmas: a cama enfiou-se logo pelo chão abaixo, abrindo-se ali um alçapão. O soldado viu-as descer pelo alçapão, uma atrás das outra.  Levantou-se, pôs a capa que a velha lhe tinha dado, e seguiu-as. No meio da escada, inadvertidamente, pisou a cauda do vestido da princesa mais nova, que gritou às irmãs:
— Alguém me puxou pelo vestido!
—Que tola! - disse a mais velha. Foi um prego da parede.



Lá foram todas descendo e, quando chegaram ao fim, encontraram-se num bosque de lindas árvores. As folhas eram todas de prata e tinham um brilho maravilhoso. O soldado quis levar uma lembrança dali, e partiu um raminho de uma das árvores.

Foram ter depois a outro bosque, onde as folhas das árvores eram de ouro; e depois a um terceiro, onde as folhas eram de diamantes. E o soldado partiu um raminho em cada um dos bosques.

Chegaram finalmente a um grande lago; à margem estavam encostados doze barcos pequeninos, dentro dos quais doze príncipes muito belos pareciam à espera das princesas. Cada uma das princesas entrou em um barco, e o soldado saltou para onde ia a mais moça. Quando iam atravessando o lago, o príncipe que remava o barco da princesa mais nova disse:
—Não sei por que é, mas apesar de estar remando com quanta força tenho, parece-me que vamos mais devagar do que de costume. O barco parece estar hoje muito pesado.
—Deve ser do calor do tempo, disse a jovem princesa.

Do outro lado do lago ficava um grande castelo, de onde vinha um som de clarins e trompas. Desembarcaram todos e entraram no castelo, e cada príncipe dançou com a sua princesa; o soldado invisível dançou entre eles, também; e quando punham uma taça de vinho junto a qualquer das princesas, o soldado bebia-a toda, de
modo que a princesa, quando a levava à boca, achava-a vazia. A mais moça assustava-se muito, porém a mais velha fazia-a calar.

Dançaram até as três horas da madrugada, e então já os seus sapatos estavam gastos e tiveram que parar. Os príncipes levaram-nas outra vez para o outro lado do lago - mas desta vez o soldado veio no barco da princesa mais velha - e na margem oposta despediram-se, prometendo voltar na noite seguinte. Quando chegaram ao pé da escada, o soldado adiantou-se às princesas e subiu primeiro, indo logo deitar-se. As princesas, subindo devagar, porque estavam muito cansadas, ouviam-no sempre ressonando, e disseram:
—Está tudo bem.
Depois despiram-se, guardaram outra vez os seus ricos trajes, tiraram os sapatos e deitaram-se.

De manhã o soldado não disse nada do que tinha visto, mas desejando tornar a ver a estranha aventura, foi ainda com as princesas nas duas noites seguintes. Na terceira noite, porém, o soldado levou consigo uma das taças de ouro como prova de onde tinha estado. Chegada a ocasião de revelar o segredo, foi levado à presença do rei com os três ramos e a taça de ouro. As doze princesas puseram-se a escutar atrás da porta para ouvir o que ele diria.
Quando o rei lhe perguntou:
—Onde é que as minhas doze filhas gastam seus sapatos de noite?
Ele respondeu:
—Dançando com doze príncipes num castelo debaixo da terra. Depois contou ao rei tudo o que tinha sucedido, e mostrou-lhe os três ramos e a taça de ouro que trouxera consigo. O rei chamou as princesas e perguntou-lhes se era verdade o que o soldado tinha dito. Vendo que seu segredo havia sido descoberto, elas confessaram tudo.


O rei perguntou ao soldado com qual delas ele gostaria de casar.
—Já não sou muito novo, respondeu, - por isso quero a mais velha. Casaram-se nesse mesmo dia e o soldado tornou-se herdeiro do trono. Quanto às outras princesas e seus bailes no castelo encantado... pelos buracos nas solas dos sapatos, elas continuam dançando até hoje...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Tiquinho de Carvão


uma versão que poderia ser "abrasileirada" da fábula de Rumpelstiltskin.

"Uma senhora fez, um dia, cinco tortas. Quando elas saíram do forno, estavam tão duras que não podiam ser comidas. Por isso, a senhora disse à filha:
- Querida, ponha as tortas na prateleira e deixe-as lá, descansando um pouco, para ver se amolecem. A mocinha, que era muito gulosa, disse consigo mesma: "Pois sim, eu vou comê-las de uma só vez". E comeu-as, da primeira à última. Mais tarde, quando acabaram de jantar, a senhora disse à filha:

- Vá buscar uma daquelas tortas. Agora já poderemos comê-la. A moça levantou-se da mesa, foi até a prateleira, onde só havia pratos vazios, voltou e disse à mãe:
- As tortas ainda não amoleceram.
- Nenhuma delas??? perguntou a senhora.
- Nenhuma, respondeu a moça.
- Bem, volte lá e traga-me uma de qualquer maneira. Quero comê-la assim mesmo, resolveu a senhora.
- Mas é impossível, ainda estão muito duras, continuou a filha.
- Não faz mal, respondeu a mãe. Veja a que estiver melhor.
- Melhor ou pior, você não poderá comer nenhuma, porque eu comi todas, explicou a moça.

A senhora ficou muito aborrecida. Apanhou a roca e foi fiar na varanda. Enquanto fiava, ia falando alto:
- Que vergonha! Minha filha comeu cinco tortas de uma só vez...
O Rei tinha saído para passear. Quando passou pela porta da casa da senhora, como não entendesse o que ela estava dizendo, parou e perguntou-lhe:
- O que você está dizendo, boa mulher???
Ela, com vergonha do que a filha tinha feito, respondeu:
- Eu estava dizendo que minha filha hoje fiou cinco meadas de linha, meu Rei!!!
- Céus! - exclamou o Rei. Nunca ouvi dizer que alguém conseguisse fazer tal coisa. Escute, eu preciso de uma esposa prendada e casar-me-ei com sua filha. Preste, porém, muita atenção: durante onze meses no ano, ela poderá comer o que desejar, usará as roupas que quiser e terá as companhias que mais lhe agradarem. Entretanto, no último mês do ano, ela terá que fiar cinco meadas de linha por dia ou, então, mandarei matá-la.
- Muito bem, disse a senhora, que estava pensando apenas nas vantagens de ter a filha casada com o rei.
Quanto às cinco meadas que ela teria que fiar em cada dia do último mês, bem... depois ela encontraria uma solução. Quem sabe, até lá, o Rei poderia esquecer-se disso...

Casaram-se, então, o Rei e a mocinha. Durante onze meses, de fato, ela comeu coisas gostosas, usou roupas bonitas e teve companhias agradáveis. Quando já ia se aproximando o décimo segundo mês, ela começou a pensar de que modo se arranjaria para fiar cinco meadas por dia. Como, porém, o rei não se referisse ao assunto, ela pensou que ele o tivesse esquecido. Todavia, no último dia do décimo primeiro mês, ele a levou a um quarto que ela nunca tinha visto, onde havia uma roca e um banco. O Rei explicou-lhe:
- Amanhã, minha querida, você virá para aqui, onde passará todo o mês, fiando cinco meadas por dia. Um empregado trará suas refeições e, à noite, eu virei recolher sua tarefa. Se não estiver pronta, já sabe o que lhe acontecerá, não é? Dito isso, retirou-se. A moça ficou muito nervosa. Ela nunca soubera fiar. Que seria dela, sem ter quem a ajudasse? Foi até a cozinha e sentou-se num banco, chorando. 


Daí a momentos, ouviu uma pancada leve na porta. Levantou-se e abriu-a. O que viu foi simplesmente um animalzinho preto, muito pequeno e esquisito, com uma cauda longa que balançava sem parar.
- Porque está chorando? perguntou ele.
- Quem é você? Retrucou ela.
- Não se preocupe com isso, continuou o bichinho.
- Porque terei que fazer uma coisa que não sei. Se não a fizer, estarei perdida. E contou-lhe a história toda, desde o começo.
- Esteja tranquila, pois vou ajudá-la. Todas as manhãs, baterei à sua janela para apanhar a linha e, à noite, trarei as cinco meadas prontas.
- Que lhe darei em troca deste favor? perguntou ela.
- Você terá que adivinhar meu nome, ou eu contarei tudo a seu marido.
- Está bem, concordou ela.

Balançando a cauda, retirou-se o animalzinho. No dia seguinte, o Rei levou-a ao quarto onde já estava a linha para fiar. Fechou a porta por fora e foi-se embora. Mal ele havia saído, bateram de leve à janela. A moça foi espiar e lá estava o animalzinho preto. Ela então lhe entregou a linha. À noitinha, a moça ouviu nova pancada na janela. Abriu-a e seu protetor colocou em suas mãos cinco meadas muito bem fiadas.
- Agora, responda-me, qual é o meu nome? perguntou ele.
- Será Juquinha?
O bichinho sacudiu a cabeça negativamente.
- Será Tonico?
Ele continuou a sacudir a cabeça e balançava a cauda cada vez mais depressa.
- Será Maneco?
- Não, disse ele e saiu correndo.
Quando o Rei voltou, à noite, encontrou as meadas prontas e disse:
- Muito bem, minha querida. Amanhã você receberá mais linha para continuar sua tarefa.

E assim sempre acontecia. Pela manhã lhe traziam a linha e, às horas certas, um empregado aparecia com as refeições. O animalzinho preto aparecia cedo para apanhar a linha e voltava ao anoitecer, trazendo as meadas prontas. A moça passava os dias pensando qual seria o nome do bichinho, mas nunca o descobria. Afinal, chegou a véspera do último dia. À noite, quando o animalzinho apareceu, perguntou-lhe:
- Já descobriu meu nome?
Ela fez novas tentativas:
- Chiquinho? Janico?
Cada vez o bichinho sacudia mais a cauda e seus olhinhos brilhavam, cheios de malícia.
- Escute, você só tem o dia de amanhã para adivinhar, do contrário... Avisou ele, e saiu correndo.

A moça ficou horrorizada. Logo a seguir, ouviu os passos de seu marido que vinha vindo. Quando ele entrou, ela lhe entregou as cinco meadas prontas e ele lhe disse:
- Amanhã é o último dia. Tome cuidado, se não aprontar sua tarefa, perderá a vida. Hoje vou jantar aqui com você. Entrou um empregado trazendo o jantar e outro banquinho para o Rei. Os dois sentaram-se e o Rei começou a rir.
- Porque está rindo? perguntou a moça.
- Porque hoje vi uma coisa muito interessante, respondeu ele. Pela manhã, saí para caçar. Fui andando pela mata e cheguei a um lugar que nunca havia visto antes. Sentei-me um instante para descansar e ouvi um barulhinho estranho. Levantei-me para verificar o que havia. Olhei para todos os lados e, afinal, atrás de uma árvore, descobri um animalzinho preto, muito pequeno e esquisito, com uma cauda comprida que agitava sem parar. À sua frente estava uma roca, onde ele fiava com rapidez espantosa. Enquanto fazia isso, ia cantando:

"Eu sou todo pretinho,
Pareço um tição,
Meu nome é Tiquinho,
Tiquinho de Carvão."

O coração da moça deu um salto ao ouvir isso. Quase ela gritou de alegria, mas conservou-se muito quietinha no banco, sem dizer palavra. Na manhã seguinte, o bichinho veio apanhar a linha. Quando a noite já vinha chegando, apareceu ele, trazendo de volta as meadas. Seus olhinhos brilhavam mais maliciosos do que nunca e a caudinha girava sem parar um instante.
- Qual é o meu nome? perguntou ele.
- Será Salomão? indagou ela.
- Não, respondeu ele.
- Zebedeu? tornou a perguntar a moça.
- Não, entretanto, vou dar-lhe mais uma oportunidade. Se ainda não acertar, já sabe o que vai acontecer...
A moça deu uma grande gargalhada e disse:

"Tu és todo pretinho,
Pareces um tição,
Teu nome é Tiquinho,
Tiquinho de Carvão."

Quando o animalzinho ouviu isso, deu um guincho horrível, saiu correndo pela escuridão a dentro e nunca mais apareceu. Mais tarde veio o Rei. Apanhou as meadas e tirou a moça do quarto. No dia seguinte, ofereceu um banquete à esposa, para o qual convidou todas as pessoas da cidade. Havia, na mesa, as tortas mais deliciosas que se possa imaginar.

A moça, no entanto, lembrando-se dos maus momentos por que tinha passado, por ter comido cinco tortas de uma vez, não quis provar de nenhuma..."

Era uma vez...

um breve relato sobre a minha paixão por contos de fadas

Acredito que todas as histórias se entrelaçam...  que o chamado mundo do “era uma vez” é só mais um entre tantas interfaces que podemos acessar de vez em quando... e que quanto mais sabemos sobre essas histórias, mais encantadoras se tornam.
Já na primeira infância, eu voava em vassouras, habitava castelos mágicos, percorria florestas e ouvia a música das fadas... O patinho feio, A galinha Ruiva, João e Maria, Chapeuzinho Vermelho, João e o pé de Feijão, o Pequeno Polegar... bastavam aquelas três palavras mágicas...
Depois veio a coleção Disquinho, colorida, mágica. Curiosamente, as minhas primeiras histórias não eram, digamos, femininas...  Festa no Céu, O príncipe Sapo, o Flautista de Hamelin... música para meus ouvidos infantis...
Foi quando elas chegaram prá me fazer companhia... passei a ouvir, ao invés de ler, Cinderela, a Bela e a Fera, Branca de Neve, minha querida Bela Adormecida... virtudes, pecados, ensinamentos, vilania, heroísmo, genialidade, esperteza... magia! alter egos que me falavam de fadas madrinhas, beleza além dos olhos, confiança, sonhos, e que vieram prá ficar...
Então veio a coleção “Sítio do Pica pau Amarelo”, que li aos nove anos... e reli, e reli e reli três vezes até meu próximo aniversário... não sem antes mergulhar na mitologia grega, com seus heróis e deuses olimpianos... Percy Jackson pode ser interessante, mas ele que me desculpe: beber direto da fonte é incomparável...
Quando ganhei “Peter Pan”, numa edição luxuosa, capa dura, ilustrações aquareladas e traduzida do original de James Matthew Barrie... achei cansativo, para uma leitora iniciante, mas detectei que havia algo mais naquela história cheia de conflitos adolescentes implícitos na decisão de não crescer...
E descobri Andersen. As aventuras da Polegarzinha, a legitimidade da Princesa e a Ervilha, até chegar à ternura da Pequena Vendedora de Fósforos. E chorei com a história de uma sereia sem final feliz. E li outra vez, e reli, e reli, na esperança de que as palavras fossem outras dessa próxima vez. Mas não eram. Nem sempre as coisas são como gostaríamos que fossem. Nem sempre o bem vence no fim. Nem sempre as princesas vivem felizes prá sempre. Nem sempre.
Abandonei, por hora, as narrativas fantásticas e abracei outras histórias, menos lúdicas, mas não menos encantadoras. Só voltaria aos contos de fadas com a  maternidade. Durante a gravidez, ficava pinçando histórias que contaria para ele, ou para ela, e descobri que elas, as histórias, estavam ali dentro, guardadas a sete chaves, preservadas em seus encantos, e agora, revestidas de outros significados...

E elas estarão aqui, em versões originais, traduzidas, roteirizadas, infantis, adultas. E a cada reconto, uma magnífica oportunidade de parar um pouco nessa vida louca vida para de novo entrar no mundo do Era uma vez...